18.4.13

Começo

Toda rara vez que piso o interior do quadrilátero que teria como vértices definidos, em rascunho, a Praça Tiradentes, a da Cruz Vermelha e a da República, com o derradeiro perdendo-se nos limites difusos da Lapa, assombra-me uma súbita impressão de já vivido.

Eco de vidas passadas, talvez a incômoda sensação de que é alta a probabilidade de a qualquer momento esbarrar em um conhecido do detetive Espinoza, ou mais certamente alguma sensibilidade lancinante desperta pelo contraste da pedra clara do quase restaurado prédio histórico da polícia contra o fumê inconspícuo dos vidros modernos do mais recente arranha-céu imposto à urbe e acima o céu azul claro da tarde de outono, o caso é que divago nas hipotéticas vidas flutuantes ocultas em hotéis, estabelecimentos alimentares, edifícios semi-residenciais, sedes de órgãos públicos, grupos de lojas do mesmo ramo, unidas no espaço mutante da metrópole como em uma guilda medieval, a se protegerem mutuamente do perigo final – o outro.

Como um psicoanalista aposentado, um escritor, um barbeiro, um pirata perdido, perco-me nas ruínas futuras da cidade à flor das águas, a devanear um oceano que não conheço, cujos afluentes incertos são a trama dos contos que se desenrolam nas almas e mentes desses transeuntes – mecânicos prestando homenagens excessivas às mulheres que passam, leitores compulsivos e imóveis de laterais de bancas de jornal, habitantes em caráter incomodamente permanente, quando não definitivo, das calçadas irregulares, magras de quadris largos e cabelos de cobre com óculos pretos e passo secretarial, postando à tarde cartas de cobrança na franquia mais próxima dos Correios e à noite notícias de seus continentes internos, desconhecidos e perigosos, nas redes sociais que lhe retornam o rumor das ondas como amuradas insensíveis.

De volta a meu bico complementar de fiscal noturno da fila da cooperativa de táxi do centro comercial, assisto mesmerizado à ilusão de controle e tomada de iniciativa dos pedestres à espera da travessia da avenida: pressionam o botão no poste, uma, duas vezes, observando um ar de critério. Incontinenti se lançam sem esperar que o sinal feche, infensos ao império da lei (que há de vingar!).

São amadores, presos ao delírio de dominar os fluxos misteriosos e insondáveis, conquanto previsíveis em sua manifestação física, da essência urbana. Como banhistas de primeira viagem. Pescadores efêmeros e diletantes. Frente ao mar.

Para mim, já quase vestido do sal das águas, o ritmo dos sinais baila como as estações do ano ou as fases da lua: cinquenta metros a leste fecha o sinal na pista de cá; carros cruzam a avenida e rumam ao norte pela outra pista; um minuto e meio depois, abrem-se todos os sinais; a tudo assistem impotentes os pedestres; novamente vermelho o mesmo sinal; lá vão os carros em busca; vinte e cinco segundos depois, as duas pistas da avenida são uma faixa livre no oceano, para a passagem inevitável de freiras surdas, mães com carrinhos de bebê, atletas retirados e secundaristas sem ideologia; abre o sinal para os carros, cumpre seu tempo, fecha. Maré sobe, maré desce, preamar, nascer, morrer, renascer de novo, a recomeçar como canções, epidemias, colheitas, romances herméticos, nada de novo sob o neon da marquise.

Altas horas, de retorno à morada, cerveja nas mãos e um vinil velho na vitrola, tento como sempre decifrar nas entrelinhas dos versos as histórias dos romances pessoais que juntos formam esse arremedo a que chamamos de realidade, em um tempo que vivi por engano. Hoje ouvi um piano diferente em faixa tocada incontáveis vezes. Quem sabe amanhã, no cruzamento da Rua da Relação com Gomes Freire, um caco de lua no céu, me surja um conto.

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