12.1.13

Cinco horas


trecho do livro projetado A Vida Segundo Beto Guedes

Cinco horas. Durante a semana, fim da aula; no domingo, o início do clássico, “45 minutos antes do nada”. Sempre o futebol. O sol das tardes era tão diferente, final dos 70, vinte e dois graus de latitude... Os algarismos dançavam do quadro-verde ao caderno, à cabeça. Toca o sinal. Cada pátio um cenário medieval, reis falando em verso, dinastias construídas e arrasadas entre duas traves. Mas hoje ele não quer ser épico. O prazo do sobressono matinal se rompeu em uma canção, como sempre, há tantos anos. De novo as folhas passavam na janela pela gama variada dos matizes nas amendoeiras: verde, cobre, ouro, bordô, âmbar, marrom, grená, amarelo, rubro. A canção no rádio falava em carruagens. E mar!
Dinastias arrasadas, princesas plebeias, todo fim de bimestre à sombra das cores. E nos verões não. Levantar, banho, café, metrô. O sol era outro, o mundo era outro. A voz no rádio a mesma. Nó.

Lembranças são falsamente enganosas, a memória é por definição verdadeira. O difícil de definir, claro, é a verdade. No metrô, o par de rapazes subiu tão nitidamente produzido que ele se sentiu um figurante de novela, procurando as câmeras ocultas, ouvindo a trilha sonora de má qualidade subir no fundo da cena. Os tênis customizados, o cabelo estiloso, a cor cítrica dos fones do celular, o celular invertido para falar, na posição de um microfone - como se o compartilhamento forçado da privacidade no espaço exíguo do vagão na realidade fosse uma opção pela exposição, por mostrar a própria vida, como num palco onde o ator fosse o personagem, ou onde as fronteiras entre ator e personagem se tivessem rompido. Palco? Não, numa tela, é nas telas, onipresentes, que se vive essa individualidade compartilhada, no mau sentido. De individualidade, pouco. De compartilhada, pouco também. Antes imposta, expressa sem preocupação com o receptor. Compulsão à emissão. Tudo o levava a refletir sobre a relação intensa entre massificação e idiossincrasia. “Ler jornal de domingo no sábado. Rumm!... Eu não! Pra mim jornal de domingo tem de ser lido no domingo. Como é que o sujeito compra hoje o jornal de amanhã? Então inventaram a máquina do tempo? Eles acham que a gente é bobo... ha ha ha ha.” O interessante era que os dois não tinham uma peça sequer do look igual. Duas expressões do mesmo estilo. Idiossincrasia e Massificação. Idiossincrasia acho que é o de casaco grafite, Massificação o de casaco cinza-chumbo. Uma boa dupla caipira. No repertório, letras de Zizek, músicas de Bauman. Pensou ele.

De todas as alternativas de mobilidade urbana, o metrô é o que mais dá a impressão de se estar parado, enquanto na verdade o deslocamento é mais rápido do que por outros meios. No trânsito, de carro, táxi, ônibus, moto, van ou kombi, o contraste entre deslocamento e imobilidade se dá por cortes bruscos, radicais, como em um filme de ação em que se usam setenta e três câmeras e oito velocidades diferentes de aceleração dos gestos para causar a impressão de movimentos vertiginosamente rápidos. A aceleração aplicada do taxista, trocando as marchas como se ouvisse em um fone interno a gravação de uma narração de fórmula um da televisão, o som ambiente mixado à frente, a voz empolgada do locutor tentando desesperadamente prender a impossível e fluida atenção dos zapping-adicts: “Ele passa a marcha nas borboletas junto ao volante! Nem uma mínima fração de segundo se perde no movimento das mãos! Toda atenção na condução da máquina!! Faz a tangente perfeita!! Sobe o giro!! Enche o motor lá em cima!!! Outra marcha, e outra, e outra!!! Desenvolve tuuudo!!! Fiquem com o áudio dos cavalos!!! Isso é que é potência!!!! No áudio exclusivo pra você!!!!!.” Sem que o sinal se feche a freada é brusca, o trânsito parado pela incompatibilidade do volume de veículos perante a inflexibilidade das artérias urbanas, à espera da congestão. A lógica do congestionamento urbano, ainda mais em vias ditas expressas, é assim: velocidade máxima e zero, em segundos. O corte seco.

No trem, o movimento e a parada seguem também um roteiro razoavelmente predeterminado (embora a pós-modernidade das formas artísticas tenha integrado a tais roteiros as estações imaginárias, como no metrô: “Estamos aguardando a liberação da sinalização à frente. Dentro de alguns instantes prosseguiremos nossa viagem”. O limbo das estações natimortas e não batizadas, entre Praça Onze e Central, entre Cantagalo e Jardim de Alá.). Mas no trem há o exterior, o sol, a chuva, a paisagem urbana. Aqui, no subterrâneo, o movimento é com pouca aceleração, de modo que os passageiros pouco precisam se segurar. O vidro das janelas se abre apenas para o escuro pintado pelas luzes indicativas das linhas. Talvez por isso a tentativa abandonada de se inserir imagens no vão escuro das paredes entre as estações tenha soado tão invasiva. Pelo menos aqui, me deixem a sós com o lado de dentro de minhas pálpebras! Pensou ele.

Aqui, no trecho subaquático do percurso, era ainda mais impressiva a sensação de deslocamento do real (não vamos discutir o real, não aqui, por favor). Ao escuro dos túneis se sobrepunha a consciência intelectual do escuro sobre o teto, e sobre o teto o oceano, e só então o firmamento de sol, conforme indicava o tablet ao lado, embora ele soubesse que a tela mostrava a previsão do tempo, e não o tempo real lá em cima, naquele caso. Aquele quintal do oceano já fora limpo, em dias recolhidos em sinapses adormecidas. A areia fina grudava implacável na pele fina das crianças, quase como farinha de trigo no fundo do tabuleiro da massa caseira ou açúcar polvilhado no sonho. O gosto da areia na sinapse é doce. Fora do gradiente dos tons das amendoeiras, havia também a paleta infinita dos verde-azuis do mar. Onde o branco das espumas era como o dos olhos, uma moldura, um fundo, uma base para o colorido que causava tantas sensações. Quando pequeno possuíra (quem não?) caixas de lápis de cores cuja numeração representava uma das inúmeras tentativas da manufatura humana de controlar, domesticar, representar e dar significado lógico-verbal à explosão do natural nos sentidos: 1-branco; 13-amarelo-canário; 22-ocre; 26-heliotrópio; 34-azul-berilo; 52-violeta; 58-roxo; 70-preto. O mundo todo, preto no branco, explicado em um conjunto finito. Muitos anos depois ele se pegava amiúde desejando secretamente um aplicativo, um site, que contivesse todos os tons, com sua respectiva numeração. Tá bom, nem precisava a numeração. Seu sonho era um aplicativo simples (não valiam programas de desenho, retoques de fotografia, imagens. Seu mundo era pouco pictórico, daí a carência que o levava a sobrecarregar de nomes de cores os escritos, embora ciente de que os nomes das cores não são as cores, ou algo assim – como as representações das cores não são as cores das asas, as reais – mas não falemos do real, não aqui, por favor) que determinasse o nome da cor que se obtém ao mixar quatro partes de azul para duas de amarelo, meia de vermelho e meia de branco. Um verde com tendências a castanho no fim do dia, sujeito a brilho? Céu, sol, sangue e paz. A cor dos olhos de uma mulher.

A garota no vagão, será que ela tinha tatuagem? Quase certo que sim. Nesse início nebuloso de milênio salpicado de juízos finais agendados, todos pareciam febrilmente registrar em suas peles as mensagens de individualidade que a mídia de massas negava. “Massificação e Idiossincrasia! Quem sabe faz ao vivo! Apresentando a incrível desembolada Sensação Líquida! Trinta e sete milhões de acessos! Quatrocentos e doze mil downloads só na primeira hora!”. Para ele, a tatuagem era uma incompreensão permanente. Dizer com a pele ou morrer mudo. Êta mileniozinho... O trem ascendia suave rumo à terrinha. Dois dias inteiros de quebra de rotina, sentado junto à parede de um auditório refrigerado em excesso, os fones de tradução simultânea vertendo para um inglês caudaloso e espesso como glucose de milho a algaravia de idiomas: búlgaro, hindi, finlandês, esperanto, português. Um congresso internacional de cinéfilos. Entrevistas, o diretor mais genial de todos os tempos da semana passada, legendas eletrônicas dessincronizadas, discussões em torno de cappuccinos sofríveis, encontros com dois ou três conhecidos daqueles tempos. “E aí, tá perdido aqui?” “O que você anda fazendo” “Ainda dando aula” E as meninas? Você tem duas meninas, né?” “Um casal”.

A filha era do tipo que parecia ter nascido na bicicleta, mas podia ficar uma tarde de sol inteira jogada no sofá assistindo à enésima reprise de um desses filmes para família. O filho, não. Desenhava, jogava futebol, mas seu elemento era a água. Na praia de todo fim de semana, ele considerava a areia um corredor de passagem entre o carro e o mar, entre o almoço no quiosque e a rebentação, entre o oceano azul e a volta pra casa, boca aberta tombado sobre o cinto, os roncos atrapalhando a bossa nova ou a dance music no som. “Uma minha, uma sua, combinado?’ Há quantos anos aquela combinação? O professor ficava mais na areia, lendo, papeando em espasmos com ela, observando o filho na água. O melhor era a camisa, o protetor solar e a sombra da barraca amenizando o sol, a brisa, o biscoito globo, o desenho das montanhas às costas, presente fora da visão como o trânsito nos espaços entre uma e outra mirada no retrovisor, na volta pra casa. Afastando-se da orla, o aroma mudava. Mas mesmo à beira-mar, não era a mesma maresia perfumada de sua praia natal. O que só fazia valer mesmo a pena aquele congresso um pouco cansativo, a que comparecia mais por desfastio que convicção. O aroma da maresia valia a pena, o mesmo aroma, outro tempo, outro mundo, outro sol. Nó.

maio 2011

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