12.1.13

Jogue suas mãos para o céu


JOGUE SUAS MÃOS PARA O CÉU
texto do livro projetado As Possibilidades Impossíveis

Contra todo o peso cromático da cultura pop infantil de seu tempo, a camiseta de malha acetinada era azul. Como concessão ao império dominante da vez, dizeres em inglês. Anunciavam que a garota era doce, e mandava ver.

Não era a primeira festa daquela roupa, na ginástica orçamentária de sua mãe separada, no ar os malabares de filhos, aluguel, escola, dentista, emprego e uma vida pessoal renascendo timidamente na forma de umas poucas idas à Lapa, e um ficante em potencial, malgrado os longos minutos de escuta sobre as vicissitudes e breakthroughs do projeto em andamento do gato corporativo em questão. A garota ergueu os braços paralelos para o céu azul da cor da sua blusa, muito acima do teto da casa de festas, e
contraiu intuitivamente os músculos exatos para acelerar ao máximo sua descida pelo tobogã. Tinha uma inteligência corporal cinética nata, e seu cabelo levemente ruivo passou como um borrão no filme que o cinegrafista fazia do aniversário.

Seu padrinho sempre lhe contava como em criança não acreditava que existissem de verdade pessoas ruivas. Achava coisa de livro: louros, morenos e ruivos. Ou cor de cabelo de boneca, como a Susi da irmã. Isso até conhecer a mãe dela na faculdade. O fogo de tais cabelos foi o alvo fixo de um olhar prolongado, que ela a princípio interpretou como paquera e acabou sendo o começo de uma longa, duradoura e intensa, conquanto intermitente, amizade.

Já seu pai, não. Esse dizia que em pequeno brincava numa praça com uma menina do cabelo vermelho, e gostava de afirmar (isso antes da separação, nas noites mornas da varanda da casa de praia, ela pouco mais que um bebê oscilando na rede, bebendo as palavras junto com o nescau da mamadeira, em meio ao torpor progressivo do sono irresistível que o sol e a areia do dia de verão haviam insidiosamente vazado através de sua pele clara) que a garotinha era a mãe dela, que os dois tinham se apaixonado com quatro anos e a vida os reunira de novo adultos. O bairro era o mesmo e ambos de fato frequentaram a mesma praça em torno da mesma época. Mas a hipótese do relato era falsa, ainda que só um narrador onisciente pudesse comprovar com certeza.

Ela só não entendia porque então a vida os reunira, para mais tarde os separar de novo. Era a vida, aquilo? E eles se reuniriam de novo? A psicóloga dizia pra ela não ficar pensando nisso. Ela às vezes gostava da psicóloga, achava incrível poder dizer o que quisesse sem que um adulto a corrigisse, desse lição de moral, essas coisas. Mas assim mesmo pensava, e a cor do céu nesses dias lhe parecia um pouco menos azul, como se a névoa das manhãs de inverno estivesse em seus olhos. Não, nos olhos não, era um nublado do coração, como ela um dia revelara à avó. A avó olhara então muito fundo em seus olhos verdes e mais tarde trouxera da padaria sorvete de pistache. A avó entendia.

Outras quartas-feiras era chato, a psicóloga. Ela não queria desenhar, nem conversar. A psicóloga brigava um pouco com ela, mas ela sabia que era pra ela melhorar. Mas era chato. O irmão mais novo era chato, chatésimo, chatonildo, chatorrorível, insuportável, só que ela descobrira com a malta pré-adolescente do fundo da van que todo irmão e toda irmã era assim, menor então nem se fala, não era por causa da separação. A psicóloga dizia pra ela não ficar pensando que tudo era por causa da separação. Ela não pensava, mesmo.

O futebol dos meninos no pátio crescia de volume, algazarra absurda de ruídos, odores. Ela às vezes jogava com eles, e encarava pau-a-pau os garotos de sua idade, ela já mais alta, e tão decidida quanto. Mas hoje tinha se deixado ficar recostada na sombra da quaresmeira florida, recostada no cimento frio do banco, ouvindo com meio ouvido apenas a discussão sem fim das meninas: beija, não beija, beija sim, tem que beijar, a minha prima beijou, beija hoje! beija na festa, não beija não, eca! Ela pensava, de verdade, olhando pro céu, nesse dia todo azul, no satélite que estava pra cair, ela vira no canal 24 horas de notícias. E se ele caísse aqui, no pátio do colégio, semana que vem? Quem beijou, beijou, quem não beijou, beijasse!

O pai era advogado, a mãe primeiro não trabalhava, depois, resgatando o talento cultivado nas tardes do Planalto Central lentamente baldeadas a confeccionar figurinos arrojados para as bonecas de papel herdadas de uma tia – tia essa bordadeira, cantora diletante, cerimonialista e especialista na realeza britânica – entrou para a faculdade de moda e acabou indo trabalhar com desenho de roupas. Mas não era dessas estilistas frescas de novela, não. Jogava bola com ela, gostava de andar de jeans, era mãe legal, não vivia só de salto alto e maquiagem. Ufa! Ainda bem... Ela lembrava do cheiro do terno do pai quando ele chegava do trabalho, antes. Ela não entendia os adultos. Os pais se separaram, mas ninguém namorava outras pessoas. Por que, então? Quando você crescer você vai entender essas coisas. A psicóloga não, dizia: isso é coisa lá deles, você precisa respeitar, eles contam se quiserem. Você também não tem lá suas coisas, que não quer ficar explicando, contando pros outros?

Ela entendia. Mas não sabia direito o que eram lá essas coisas. O medo do satélite cair, e ela não voltar nunca mais da escola? O nublado no peito? A pena de ver as costas da avó doendo, e ela disfarçando pros netos não se preocuparem? A raiva quando um menino idiota daqueles falava as bobagens batidas que eles acham que as meninas vão achar engraçado? O susto quando a mãe contou do namorado? As amigas descoladésimas da van explicaram que eles iam fazer sexo, e tudo. Ela sabia, claro, sexo. Mas ainda não se conformava muito.

Menstruação era fácil, ela não tinha medo, achava normal, tinha aprendido com quatro anos, por causa do cio das cachorras, na casa de praia. Esquisito, mas quer saber? Que que tem? Não tem nada. Era disso talvez que a psicóloga falava? O cabelo da psicóloga ela era liso, liso, escuro, a garota ficava às vezes perdida naqueles fios, enquanto a voz da outra ia tecendo tipo um colchão de ar seguro, onde ela podia se deixar cair, sem medo, e a psicóloga quando via perguntava ei, planeta Terra chamando, você ainda está aí? Ela ria, pedia desculpas, até quarta, então.

Voltava pra casa a pé, pulando as linhas da calçada, andando mais devagar sobre o cimento rosa-forte na frente daquele prédio novo, pelo prazer do matiz pisado. Toda semana as mesmas esquinas, a fronteira tênue e difusa entre os bairros, de que seu pai fazia tanta questão, “eu nasci em Santa Branca, agora dizem que é Outeiro...”. A mãe antes ria, “é isso mesmo”, agora quando chamava o táxi dizia Outeiro. Desde cinco, seis anos, ela perguntava aos pais, padrinhos, professores sobre os grafites nos muros. Primeiro o que estava escrito, depois que soube ler e viu que era nada, mas por que então eles riscam as paredes? Os adultos davam de ombros, calavam, ela pensava que os adolescentes também eram esquisitos, ela quase uma adolescente? Na calçada da avenida estreita passou pelo primeiro amor escondido no futuro, mas não se viram. A música no ipod era roubada do computador do pai, na frente dele ela dizia que não gostava da banda, mas por quê? Implicar era sempre sem motivo, depois ela não ficava bem, mas não controlava. Não entendia. Quando crescesse?

Meninos, achava que não ia entender nunca. Meninas não ficavam se preocupando em ver a cor das cuecas dos meninos, aliás muito pelo contrário, lércati, porque então eles saíam gritando alucinados nomes de cores, como se jogassem Responda se Puder aos berros pelas sacadas da escola? Garoto era bicho bobo, mas aí ela lembrava de repente que o padrinho e o pai tinham sido garotos também, e pensava quando será que conserta, perguntava pra mãe, que ria e dizia, acho que nunca, filha, a gente é que acostuma, e quando depois ela lembrava das conversas com a mãe, nessas horas seus olhos muito verdes iam mudando de tom igual às folhas das amendoeiras no pátio do colégio, e ela sentia a garganta apertar, porque se ela tivesse ido morar na China igual o garoto do filme, aprendido kung-fu, tudo, e o satélite caísse na casa dela aqui, a mãe morria, e ela não morria junto. A psicóloga dizia pra ela não pensar muito nisso, todo mundo morre, ninguém sabe quando, mas sua mãe não vai morrer agora não, você tá é preocupada porque seu pai foi morar em outra cidade, mas no fim de semana ele vem, é perto. E ela não se preocupava, mesmo.

Quando se via no espelho imaginava seu rosto com uns óculos de armação roxa, tipo os da madrinha, achava que ia ficar bonita, mas aí lembrava da capoeira que o avô pagava, do futebol, era chato precisar de óculos. Mesmo assim. Quando os amigos do avô vinham tocar violão e cantar na varanda do quintal, as músicas eram sempre as mesmas, do tempo deles. Algumas ela achava engraçadas toda vez, como essa que falava como era bom ter uma pessoa com quem a gente quisesse sempre estar, o tempo todo, na rua, na chuva, numa casinha de sapê. 

Em pequena ela costumava perguntar se o porquinho fazia casa de sapê, tinha uma babá velha que dizia isso, ela achava, mas os outros adultos diziam palha, madeira, tijolo. E ela sabia que isso de uma pessoa sempre com a gente era aquelas coisas de amor. Mas o avô cantava olhando pra ela, não pra mãe, nem pra avó. Eles não tinham se separado, fizeram sei lá quantos anos de casado e viajaram pro Nordeste. Aí ela não sabia mais se era aquele amor do beija não beija, ou outro. Tinha tudo quanto é tipo de amor, e ela gostava de ficar reparando, quietinha, às vezes fingindo brincar no game de mão, quantas vezes aquela palavra aparecia nas músicas que eles cantavam. Geralmente era amor de beijo, mas às vezes aparecia um diferente. Ela gostava daquela que dizia qualquer maneira de amor vale a pena. 

Quando menor achava que isso de pena tinha a ver com a história da pombinha do dilúvio. Criança pensa cada coisa. O avô cantava doce olhando fundo nos olhos dela, e ela já não sabia direito. Aquela festa de aniversário era do filho de um colega do trabalho antigo do pai, era fim de semana deles ficarem com o pai, ela foi, porque o pai queria – em telefonemas pré-festa, no outro sábado, o pai abaixara a voz falando com os colegas, fingindo não reparar se ela, olhos fixos no game de mão, ouvia: do RH? Ela vai, é? Também, ela, mesmo já pré-adolescente (adolescente? – as fronteiras difusas, aqui Outeiro, antes de tudo Santa Branca) morria por uma casa de festas, ainda mais aquela do escorrega grande, ela no cobertor, braços paralelos para o alto, o mundo sumindo no grito; o satélite, a mãe, o irmão, o pai, a psicóloga. Só ela, o movimento, e o sol laranja além do teto soprando longe o nublado sob a possibilidade dos seios apontando.

Tinha 10 anos, e o cinegrafista lia na camisa: sou doce, e mando ver.

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